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Nosso Estresse de Cada Dia

Por Sergio Duarte Júnior e Giovanna Piccoli

O estresse faz com que o organismo entenda que a cada momento devemos estar preparados para lutar ou para fugir.


O estresse pode ser uma resposta do organismo diante de situações que mobilizam diferentes processos no corpo humano. Os três principais fatores para uma circunstância ser interpretada como estressante são: ser nova, imprevisível e o indivíduo sentir que não tem o controle sobre a sua situação. O principal hormônio envolvido no estresse é o cortisol, substância produzida pela região superior da glândula supra-renal, e sua presença no organismo pode se tornar crônica. Já é bem estabelecida a relação entre déficits cognitivos e a exposição à agentes estressores, quer sejam eventos traumáticos, a sobrecarga de uma carreira profissional, mudanças nas atividades produtivas (aposentadoria, sucessão ou incapacidades) e a manutenção da rotina.

O cotidiano nos impõe que estejamos constantemente em alerta. Motivos para isso não faltam: transito caótico, insegurança, instabilidade econômica, e todas as demandas particulares da vida de cada indivíduo.


Conforme os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o estresse acomete mais de 90% da população mundial, podendo ser considerado uma epidemia global. O conjunto de sintomas que o constitui se baseia na forma como nosso corpo se adapta e se protege contra estressores internos e externos.
O estresse é considerado um dos quadros de sintomas físicos e emocionais mais presentes na atualidade. Ele pode ocorrer por diversos fatores que alteram o equilíbrio interno do organismo, causando um somatório de danos. Os efeitos de estresse cumulativo podem aparecer, fisiologicamente, pelo aumento da frequência cardíaca e respiratória, aumento do tônus muscular e do metabolismo e diminuição da função imune – isto é, sintomas prejudiciais sobre a capacidade natural de retorno do organismo ao equilíbrio homeostático antes do quadro de estresse.
O cortisol ativa respostas do corpo frente à situações de emergência, transmitindo impulsos nervosos ao hipotálamo para ajustar a resposta física aos problemas, aumentando a pressão arterial e o açúcar no sangue, propiciando a energia muscular para a fuga. Por este motivo, o cortisol é chamado de hormônio do estresse. Em proporções normais, este hormônio é fundamental para o bom funcionamento do corpo, melhorando a capacidade integrativa do organismo com o meio, bem como buscando restaurar a homeostase, ou seja, o equilíbrio interno após um evento estressor.
Embora o cortisol seja necessário em nosso organismo quando é encontrado em excesso no sangue pode ser a fonte de danos à saúde. No caso de estresse prolongado como o observado em trabalhadores de alto desempenho em funções administrativas, operacionais e logísticas o organismo terá seus processos fisiológicos desregulados. O desequilíbrio causado pela exposição constante do organismo ao cortisol pode ocasionar: obesidade, hipertensão, diabetes, aumento nos níveis de colesterol e triglicerídeos, parada cardíaca, acidente vascular cerebral, imunossupressão (baixa do sistema imunológico), alteração dos padrões de sono, dores musculares, fibromialgia, distúrbios endócrinos, depressão, ansiedade entre outros. A exposição a longo prazo ao cortisol pode resultar em um processo denominado oxidação. O rebaixamento de funções cognitivas pode se relacionar com os danos causados pela oxidação em diferentes regiões do córtex cerebral, por exemplo; danificando células do hipocampo, levando a diminuição da capacidade de aprendizagem.

No que diz respeito ao estresse psicológico, estudiosos o consideram um fator de risco importante para o desenvolvimento de inúmeras doenças.


A sobrecarga de estresse pode elevar a atividade cerebral, causando um aumento na produção e liberação de neurotransmissores, causando um desequilíbrio em marcadores biológicos. A diminuição da necessidade de sono e o aumento do estado de vigília do corpo causa o estado prolongado de alerta, desregulando o padrão hormonal necessário para o metabolismo e trazendo alterações na memória, por exemplo.
As funções executivas (FE) compõem outro domínio susceptível aos impactos do estresse. A complexidade do comportamento humano se relaciona diretamente com a expressão das FE, as quais são suportadas pelo córtex frontal. As regiões pré-frontais exercem um controle sobre o fluxo de informações sensoriais, afetivas e de memória e faz com que estas áreas sejam responsáveis pelo planejamento, controle e monitoramento da resposta comportamental aos estímulos. Esta capacidade executiva possibilita o controle das habilidades humanas mais complexas, como o planejamento de ações sequenciais, a padronização de comportamentos sociais motores, parte do comportamento automático emocional e da memória de trabalho. Os substratos anatômicos pré-frontais que comandam as FE, não por acaso, são os mesmos em que concebemos as representações de futuro. Através da representação de cenários futuros hipotéticos (conseqüências das decisões) que podemos eleger qual cenário será o mais adaptativo, selecioná-lo (decidir por ele) e traçar uma ‘rota’ para atingi-lo no futuro. Considerando a magnitude da relação entre o cortisol e seu impacto nas FE, tomar uma decisão na rotina pode ser prejudicada quando em situações de estresse.
De forma geral, para compreender melhor o impacto do estresse no processamento cognitivo é possível considerar alguns sintomas; dificuldades para recordar os nomes das pessoas, lembrar as datas de eventos, locar objetos, estar irritado com frequência, ansiedade, diminuição da atenção e da velocidade para captar a informação, que podem se tornar mais evidentes ao passo que aumentam ou se aproximam situações estressoras.

Mas então como fazer para sobreviver a tantas demandas estressantes? Tudo realmente é urgente como parece? A maneira como manejamos todos estes desconfortos pode fazer a diferença.


Cada indivíduo pode experienciar o estresse de diferentes maneiras. As pessoas podem reagir de forma repetitiva e automática às situações adversas do dia-a-dia, como por exemplo, através de erros cognitivos comuns: pensamento dicotômico (“tudo ou nada, 8 ou 80”), catastrofização, leitura mental, minimização, generalização, entre outros. Essas distorções cognitivas tendem a aumentar o impacto dos efeitos do estresse no organismo do indivíduo. Além disso, algumas situações podem ser desencadeadoras para ativar os sintomas estressores no organismo: brigar com o cônjuge, vivenciar um luto, falar em público, cuidar de parentes com doenças degenerativas, realizar avaliações, entre outros.
Alguns indivíduos convivem melhor com os efeitos do estresse, já outros necessitam de ajuda profissional (psicólogo, psiquiatra) para lidar com as suas consequências – neste caso, consideram-se variáveis genéticas e sociais. Portanto, é essencial a identificação da presença dos sintomas nas consultas médicas, psicológicas e de outros profissionais da saúde. Alguns desses sintomas, em nível psicológico, podem surgir através de queixas em relação ao sono, libido, fadiga, humor, entre outros.
A literatura revela alguns achados sobre os efeitos de estresse em estudantes, trabalhadores e cuidadores, corroborando com a necessidade de prevenção a esses sintomas. Um estudo realizado com estudantes de um programa de pós-graduação encontrou os seguintes resultados: 63,5% apresentavam sintomas relevantes de estresse ocupacional e 71,4% baixa qualidade do sono, considerando que as principais fontes de estresse referidas nesta população foram sobrecarga de trabalho (63,5%), ausência de feedback (57,7%) e estresse interpessoal (57,7%).

As principais queixas acabam recaindo na vida profissional, como excesso de trabalho, de pressão por resultados, de relacionamentos com chefes e colegas. Os principais sintomas e queixas são:

Pessimismo / Preocupação excessiva / Alterações de humor/ Agitação / Sensação de sobrecarga/ Depressão ou tristeza/ Dores/ Constipação ou diarreia/ Náuseas e/ou tonturas / Dores no peito / Perda de libido / Gripes e resfriados constantes / Perda de apetite ou compulsão / Insônia ou sono excessivo / Procrastinação e fuga de responsabilidades / Abusar de álcool, cigarros e drogas para relaxar.

A sensação de estar no comando da própria vida é uma forma de tornar possível conviver com o estresse, mas como se chega lá?


Para lidar com os efeitos adversos causados pelo estresse, algumas técnicas são sugeridas e ensinadas no âmbito psicoterápico. Estas podem ser expandidas para o uso externo à terapia. Descritas por pesquisadores e terapeutas de diversas áreas, essas técnicas se mostram eficazes para combater os sintomas de ansiedade e estresse. Abaixo são listadas algumas delas:

• Respiração Diafragmática: Solicita-se que o indivíduo feche os olhos e inicialmente coloque uma das mãos na região torácica e outra na região umbilical. Após alguns minutos (2 a 3), pede-se que ele descreva a mão que mais se movimentou durante a respiração, o que levará ao reconhecimento do padrão respiratório, seja ele torácico ou abdominal. Após isso, é solicitado que a pessoa realize 4 etapas: inspire, retenha o ar, expire, e pause (cada etapa por 4 segundos) – sempre utilizando respiração nasal. Essa técnica busca o equilíbrio do sistema nervoso autônomo, na qual, normalmente, o indivíduo relata “relaxamento”, “sonolência”, ou até mesmo “tontura”, entre outros. O objetivo dessa técnica é treinar a utilização do músculo diafragma durante o ciclo respiratório.

• Técnica de Relaxamento Progressivo de Jacobson: Baseia-se em contrair/enrijecer e relaxar os grupos musculares específicos em sequência. O objetivo dessa técnica é que o indivíduo possa se tornar mais consciente do seu corpo, bem como suas sensações físicas. Essa prática pode aliviar a ansiedade, baixar a pressão arterial, reduzir a probabilidade de convulsões e melhorar o sono, dentre outros benefícios para saúde.

• Mindfulness: Consiste em uma “varredura mental” do corpo com atenção concentrada. É solicitado que o indivíduo vá notando todas as sensações que percebe, concentrando a sua atenção intencionalmente nessa vivência. Pode ser feita em diferentes posições corporais: deitado, sentado ou em pé. Em alguns exercícios de mindfulness, é solicitado que o indivíduo concentre sua atenção especialmente em sua respiração. Se ocorrer uma distração (emoção, pensamento), este é intencionalmente reconhecido e percebido e logo, volta-se a atenção para a respiração. Assim, o participante é estimulado a aceitar cada distração, sem utilizar qualquer julgamento, bem como não se deixar ser comandado por ela.

Não é uma situação que se cura – o estresse -, mesmo porque sua natureza é uma reação do organismo a situações percebidas como ameaçadoras. Esta reação é que pode causar adoecimento. As formas de lidar com o estresse podem variar como fazer atividade física, contato com amigos e família, recolhimento e meditação, etc. Pedir ajuda, reavaliar as situações, enfrentar os medos, procurar ajuda profissional (psicólogos) podem ser algumas das formas eficazes de seguir a diante

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