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Todo mundo gosta de música? Curiosidades sobre a amusia

            O fato de que a musicalidade seja uma característica que contradistingue o ser humano das outras espécies, faz já parte do senso comum. A música possui uma origem muito antiga e é um elemento universal, transcultural e transmitido de geração em geração. Nos deverá então surpreender muito saber que existem pessoas que, desde o nascimento ou em decorrência de lesões cerebrais, não podem compreender, executar e apreciar a música.

            A amusia congênita é um transtorno neurológico conhecido há mais de um século, a partir do trabalho pioneiro de Grant-Allen em 1878. O pesquisador descreveu um caso de um homem de 30 anos sem nenhuma lesão neurológica, com um nível alto de escolaridade e que tinha recebido aulas de música desde criança. Apesar disso, ele era incapaz de reconhecer melodias familiares, não conseguia discriminar dois tons consecutivos e nem acompanhar uma música cantando. Além disso, ele mostrava-se totalmente indiferente à música.

            A amusia congênita acomete aproximadamente o 4% da população e se manifesta através de dificuldades no processamento do tom musical, mas não do ritmo musical. Estudos mostraram que tem uma componente hereditária e que provavelmente é influenciada por diferentes genes interagindo entre eles e com o ambiente. O cérebro de um indivíduo amúsico apresenta uma comunicação empobrecida nas áreas do hemisfério direito e possui menos substância branca na região do córtex frontal inferior direito.

            Existem vários tipos de amusia congênita, bem como diferentes tipos de amusia adquirida após lesões cerebrais. Por exemplo, a perda do processamento musical pode ser parcial ou total; a amusia pode ser expressiva, acometendo a capacidade de cantar tons individuais e melodias, pode ser receptiva, prejudicando a compreensão da música, pode ser instrumental, afetando a capacidade de tocar instrumentos, ou pode prejudicar a capacidade de ler e escrever música.

             A literatura da neurologia relatou alguns casos clássicos que possuíam uma amusia total. Sujeitos com amusia total não conseguem gostar de música, uma vez que para eles as melodias perdem qualquer qualidade musical e tornam-se desprazerosas. Por exemplo, foi descrito o caso de um ex-cantor que se tornou amúsico em decorrência de uma lesão cerebral. Após o acidente, cada vez que escutava uma música, ele se queixava de ouvir o barulho dos freios de um carro.

            Isabelle Peretz é uma das pesquisadoras que mais se interessaram no estudo da amusia. Ela desenvolveu o Montreal Battery of Evaluation of Amusia (MBEA), uma bateria de testes que avalia seis componentes do processamento musical: escala, contorno, intervalo, ritmo, métrica e memória musical. A MBEA foi validada no Brasil e pode ser utilizada com pacientes neurológicos como instrumento de avaliação das funções musicais.

            A Bitácora oferece um atendimento interdisciplinar, contando com a musicoterapia para promover a saúde, estimulação, reabilitação e terapia, e como recurso para complementar e integrar a avaliação neuropsicológica. A musicoterapia é endereçada a pessoas de todas as idades e pode ser realizada em sessões individuais ou em grupo.

Ambra Palazzi: musicoterapeuta, ama cantar e utilizar a música como recurso de expressão, interação e estimulação com pessoas de todas as idades, desde bebês até a terceira idade.

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