Orientação

A Expressão Neuropsicológica sob os efeitos do vírus HIV-1

por Sergio Duarte Junior

Os mecanismos de ação do vírus HIV-1 no organismo humano ocorrem, predominantemente, na diminuição das células de defesa do corpo tornando o indivíduo susceptível a uma variedade de doenças. Pela natureza bioquímica do vírus, o sistema nervoso central (SNC) humano torna-se um local com grande presença de carga viral e acaba sendo afetado de diferentes maneiras.

As alterações na expressão neuropsicológica podem variar entre os portadores do vírus HIV-1 de acordo com as estruturas nervosas atingidas pela ação direta ou indireta do vírus compondo, inclusive, um perfil neuropsicológico característico. Os circuitos da consciência e da memória podem ser lesados precoce, tardia, direta ou indiretamente pelo HIV-1, promovendo déficits funcionais denominados de Complexos Cognitivos Associados ao HIV (CCAH).

Ao longo dos anos, lenta e progressivamente, podem surgir manifestações clínicas discretas, como baixa capacidade de concentração, lentificação cognitiva e apatia - que se pode confundir com depressão, baixa atividade psicomotora e modificações da memória verbal e não-verbal. Posteriormente, com o agravar do processo, alterações cognitivas mais significativas aparecem, como perda expressiva da memória e outras funções, em diferentes níveis. Déficits nutricionais também devem ser levados em consideração.

Pontualmente, podem ser observadas alterações nas seguintes funções neuropsicológicas (Küper et al, 2011);

  • Funções executivas;
  • Reduzida velocidade de processamento;
  • Inibição e iniciativa;
  • Flexibilidade cognitiva;
  • Atenção concentrada e dividida;
  • Memória episódica (recente), trabalho e prospectiva;
  • Linguagem (compreensão de materiais complexos) e
  • Dispraxias

As atuais definições diagnósticas (DSM-5) apontam para a expressão de um transtorno neurocognitivo com um padrão predominantemente subcortical, isto é; funcionamento executivo, redução da velocidade do processamento da informação, atenção e aprendizagem.

Correlatos anatomo-funcionais entre o vírus HIV e o SNC

O HIV-1 atinge todo o sistema nervoso central por mecanismos ainda não bem-definidos, havendo duas teorias que mostram o vírus invasor como agente neurotóxico (neurovirulento) ou neurotrópico (neuroproteção neuronal). Encontra-se documentada na literatura científica perda neuronal em todo córtex frontal, atrofia cerebral e desmielinização, fundamentalmente nas zonas periventriculares, corpo caloso, cápsula interna, comissura anterior e trato óptico. A morte dos neurônios ocorre através de células não neuronais como a micróglia e os astrócitos, que podem liberar substâncias que se difundem provocando processo de morte por necrose. A extensão deste dano é ligada ao nível do déficit neurológico clínico. Exames de necropsia de pacientes HIV-1 positivos mostraram a presença de vírus em estruturas corticais e subcorticais, como lobos frontais, substância branca subcortical e núcleos da base.

O avanço da eficácia dos métodos de tratamento diminuiu expressivamente as mortes por AIDS trazendo um aumento na expectativa de vida dos portadores do vírus HIV-1. Com maior longevidade a qualidade de vida tornou-se foco de atenção das ações de saúde pública e as disfunções emocionais daqueles que vivem com HIV-1 adquiriram forte representatividade nos protocolos de cuidados clínicos. Transtornos do humor, principalmente de cunho depressivo, de ansiedade e os declínios neurocognitivos, independente da presença do vírus, também devem ser alvo de atenção ao longo do desenvolvimento humano.

O vírus HIV e a aids

Ser portador do vírus HIV não significa ter aids. Uma vez infectado pelo vírus a pessoa pode, ou não, desenvolver aids. As pessoas que são portadoras do vírus HIV podem não ter qualquer alteração no seu funcionamento durante toda a vida, porém, podem transmitir o HIV para outras pessoas, mesmo sem saber que são portadoras. Essas pessoas são denominadas de vetores, ou seja, sem qualquer sintoma clínico mas transmitem o vírus e acabam infectando outros sujeitos. Ressalta-se que esta não é a maioria dos casos.

 A partir do momento que o vírus HIV infecta o organismo humano existe um período de tempo, denominado de “janela imunológica”, até que o corpo produza anticorpos chamados anti-HIV. Os anticorpos anti-HIV são produzidos pelo sistema de defesa do corpo em resposta ao HIV e os exames irão detectar a presença dos anticorpos, o que acaba confirmando a infecção pelo HIV. O período de identificação do contágio pelo vírus depende do tipo do exame e da reação do organismo do indivíduo. Na maioria dos casos a sorologia positiva é constatada entre 30 até 60 dias após a exposição ao HIV. Se o teste for realizado no período da janela imunológica existe a possibilidade de apresentar um falso resultado negativo. Com o avanço da precisão dos testes sanguíneos e da facilidade de acesso aos mesmos é cada vez mais fácil detectar a presença do vírus no organismo humano.

Quando há uma exposição ao vírus entre adultos (relação sexual sem preservativo ou incidentes de trabalho com risco de contaminação biológica, por exemplo) é possível que se faça um tratamento medicamentoso preventivo com uma janela de poucas horas após a exposição com o objetivo de impedir a invasão e a multiplicação do vírus no corpo humano.

HIV

O vírus da imunodeficiência humana, chamado de HIV, se difundiu pelo mundo ao longo das últimas décadas e apresenta uma diversidade de tipos, de acordo com a região geográfica;

HIV tipo 1; 10 subtipos, designados de A até J

Tipos A,C,D =  circula predominantemente em parte do continente Africano;

Tipo B = pelas Américas do Norte e do Sul e Europa;

Tipo E = sudeste da Ásia;

Tipo C = na Índia e China;

HIV tipo 2; 5 subtipos, designados de A até E,  circulando predominantemente no Oeste Africano. O HIV-2 apresenta maior agressividade quando comparado ao HIV-1. Em qualquer caso, depois de infectado, o vírus pode causar subespécies diferentes no organismo humano o que contribui para dificultar o isolamento, a inativação e a expulsão do vírus.

 

AIDS

A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, AIDS ou SIDA, é o estágio mais avançado de uma doença que ataca o sistema imunológico e é causada pelo vírus HIV. O vírus ataca as células de defesa do corpo, nosso organismo fica mais vulnerável a diversas doenças e inclusive o tratamento dessas doenças fica prejudicado. A aids se estabelece como diagnóstico, em indivíduos maiores de 13 anos, somente quando os critérios abaixo estiverem presentes:

- existência de dois testes de triagem (reagentes) ou um confirmatório para a detecção de anticorpos anti-HIV

- diagnóstico de pelo menos uma doença indicativa de AIDS ou contagem de linfócitos T CD4+

Ou seja, a presença do vírus HIV no organismo não indica, por si só, a aids o que se torna um fato com grande repercussão, não só clínica mas também social, envolvendo o preconceito, prevenção e ressaltando a identificação precoce da presença do vírus no corpo humano. A prevenção continua sendo a estratégia mais eficaz contra a disseminação do vírus.

Distribuídos por todo o país, grupos de apoio para portadores do vírus HIV, físicos ou virtuais, e para familiares, fóruns online de discussões, blogs de portadores descrevendo todas as fases do processo e respondendo a perguntas estão permanentemente disponíveis. Canais oficiais dos governos (municipais, estaduais e federal) sobre informações técnicas e dúvidas, endereços de locais para acolhimento, testagem sanguínea, acompanhamento clínico (físico, emocional, social e jurídico), serviços e instituições disponíveis (hospitais capacitados, de referência e os CTA – Centro de Testagem e Aconselhamento) ações e dispositivos que, juntos, formam a rede de tratamento e apoio, financiada e integrante do Sistema Único de Saúde, tornando-se um modelo de atenção ao portador do HIV internacionalmente reconhecido e reproduzido em outros países.

A testagem sanguínea, rápida, discreta, gratuita e de qualidade como tradicionalmente oferecida no Brasil, é a melhor forma de identificar precocemente a presença do vírus contribuindo para o controle das manifestações do vírus no organismo, o aumento da expectativa de vida, a satisfação pessoal, o desempenho profissional e o bem estar físico e emocional.

 

Associação Psiquiátrica Americana (2013). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (5ª Ed.). ArtMed, Porto Alegre.

Küper, M.; Rabe, K.; Esser, S.; Gizewski, G. W.; Husstedt, G.W. & Maschke, M. (2010). Structural gray and white matter changes in patients with HIV. Journal of Neurology.

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