Orientação

Neuropsicologia da Microcefalia no contexto do Zika Vírus

Em 1º de fevereiro de 2016, a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou o surto de microcefalia no Brasil e outros distúrbios neurológicos associados, como estado de Emergência de Saúde Pública de Interesse Internacional. O surto de Zika vírus foi relacionado ao aumento do registro de casos de microcefalia e/ou síndrome de Guillain Barré (SGB) em vários países compondo, assim, um evento na saúde pública em diferentes locais do mundo. Suspeita-se fortemente de uma relação causal entre infecção por Zika durante a gravidez e microcefalia, ainda que não seja cientificamente confirmada.

O que é a Microcefalia?

A microcefalia é uma condição onde a criança nasce com diminuição do tamanho da cabeça ou quando a cabeça deixa de crescer depois do nascimento, em relação aos parâmetros considerados típicos.

  • Microcefalia primária: A microcefalia primária autossômica recessiva (MPAR) é uma das formas de microcefalia genética. Os indivíduos afetados apresentam redução do perímetro cefálico - como conseqüência de uma diminuição na espessura do córtex cerebral associado a retardo mental, não observando-se dismorfias, malformações ou outras alterações neurológicas significativas;
  • Microcefalia secundária: A microcefalia secundária pode ocorrer em um contexto onde a cabeça da criança, no momento do parto, têm o tamanho adequado e mais tarde começa a dar sinais de alterações no desenvolvimento com desaceleração do crescimento do cérebro que pode ocorrer por infecções, traumas físicos, intoxicação, doenças metabólicas, síndrome de Rett ou alguma doença degenerativa.

O que causa a Microcefalia?

A microcefalia é um sinal clínico encontrado em inúmeras condições de origem ambiental ou genética, podendo vir acompanhada de outras alterações morfológicas (microcefalia sindrômica ou complexa) ou não (microcefalia pura, não sindrômica). A microcefalia de causa genética é também chamada microcefalia primária e a de causa ambiental, microcefalia secundária.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico da microcefalia pode ser feito através de ecografias durante a gestação ou após o nascimento através da medida do perímetro cefálico, que é a medida da cabeça.  Também é considerado repetir a mensuração da circunferência da cabeça 24 horas após o nascimento. Para o diagnóstico serão considerados outros fatores, como: o momento em que o bebê nasceu, se ele é prematuro, qual é a relação entre a curva do perímetro encefálico, a curva do peso e a curva da estatura da criança e também se existe a proporção entre o rosto do bebê e o crânio. 

E quais são as consequências para a cognição?

A grande maioria das crianças nascidas com microcefalia pode apresentar alterações em seu desenvolvimento intelectual, porém, o nível de gravidade varia de caso a caso. O crânio pode aumentar conforme a criança cresce mas continua em um tamanho inferior ao adequado para o desenvolvimento do cérebro. Há casos em que a inteligência da criança não é afetada por conta da condição.

O perfil das alterações neuropsicológicas pode variar de acordo com as estruturas cerebrais prejudicadas. Isto significa que é possível observar alterações em múltiplos domínios cognitivos (memória, atenção, orientação, percepção, linguagem e funções executivas) ou dificuldades específicas envolvendo o processamento da informação e, conseqüentemente, o aprendizado. Além das alterações neuropsicológicas crianças com microcefalia podem apresentar problemas neurológicos diversos, como: alterações na face, alterações no desenvolvimento motor, alterações visuais, hiperatividade, nanismo, alterações comportamentais, todos com diferentes graus e, também, convulsões.

O diagnóstico foi confirmado, e agora?

Não é possível determinar um tratamento específico que possa reverter a microcefalia. As crianças afetadas necessitam de acompanhamento especializado para sua reabilitação, que deve ser realizado em centros com profissionais capacitados. Independentemente das alterações e do impacto no desenvolvimento da criança, a estimulação precoce é o método terapêutico de primeira linha. Assim sendo, acompanhamento com profissionais da área de fonoaudiologia, psicologia, psicopedagogia, fisioterapia, terapia ocupacional e médica buscando estimular e desenvolver habilidades, bem como compensar dificuldades, são indicados não só para o desenvolvimento da criança na infância, mas também para a vida toda buscando promover a autonomia, socialização, comunicação e bem-estar físico e emocional.

É possível prevenir a Microcefalia?

Considerando relação entre a ocorrência de microcefalia e a infecção pelo Zika vírus, recomenda-se que todas as gestantes e mulheres em idade fértil, com possibilidade de engravidar, devem tomar algumas medidas de cuidado pessoal, como:

- Manter as vacinas atualizadas conforme o calendário vacinal do Programa Nacional de Imunização do Ministério da Saúde;

- Consultar um médico antes de fazer uso de qualquer substância. Há medicamentos com potencial teratogênico que podem provocar alterações no desenvolvimento do feto/bebê;

- Estar atenta quanto à natureza e a qualidade daquilo que se ingere (água, alimentos, medicamentos) ou tem contato, e o potencial desses produtos afetarem o desenvolvimento do bebê;

- Proteger-se das picadas de insetos durante a gestação:

  • Evite horários e lugares com presença de mosquitos;
  • Sempre que possível utilize roupas que protejam partes expostas do corpo;
  • Consulte o médico sobre o uso de repelentes e verifique atentamente no rótulo as orientações quanto à concentração e frequência de uso recomendada para gestantes;
  • Permanecer, principalmente no período entre o anoitecer e o amanhecer, em locais com barreiras para entrada de insetos como: telas de proteção, mosquiteiros, ar-condicionado ou outras disponíveis.

- Manter o acompanhamento pré-natal em dia e estar atenta a qualquer alteração no seu estado de saúde durante a gestação procurando o seu médico sempre que necessário.

 

*Retirado do Protocolo de vigilância e resposta à ocorrência de microcefalia

(Emergência de Saúde Pública de Importância Nacional – ESPIN – Ministério da Saúde)

 

Texto produzido por parte da equipe vinculada ao Programa de Estágio Curricular da Bitácora:

Giovanna Piccoli, Juliana Miranda e Luis Filipe Schmidt; estagiários de graduação

Thaís Landenberger (CRP 0722002) e Sergio Duarte Junior (CRP 0720911); Psicólogos

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