Orientação

O Processo Diagnóstico dos Transtornos da Aprendizagem

Por Sergio Duarte

Problemas de aprendizagem, dificuldades atencionais, baixa auto estima e conseqüentes distúrbios de comportamento, como retraimento ou agressividade, são componentes constantes no contexto clínico de atendimento às crianças e adolescentes com desempenho prejudicado nos anos iniciais da educação formal (1). O Transtorno Específico da Aprendizagem (TEAp) é um dos Transtornos do Neurodesenvolvimento, com origem biológica constituindo a base das alterações cognitivas e suas respectivas manifestações comportamentais. Tal origem biológica inclui a interação de fatores hereditários com o contexto ambiental que acabam por influenciar a forma como o cérebro processa e percebe as informações (2).

Comumente o TEAp é percebido junto ao processo de escolarização formal, no denominado período de desenvolvimento, com manifestações diversas e de acordo com a necessidade da habilidade que deverá ser utilizada (nível crescente de dificuldade de leitura, por exemplo, iniciando com palavras isoladas, frases e textos).  

O diagnóstico de TEAp possui os seguintes especificadores (2):

-        Com prejuízo na leitura

-        Com prejuízo na expressão escrita

-        Com prejuízo na matemática

O principal requisito quando pensamos nos sintomas de TEAp é a permanência da dificuldade por pelo menos seis meses após o uso de intervenções específicas nas disfunções.

Alguns sintomas de TEAp (2):

-        Leitura de palavras de forma imprecisa ou lenta e com esforço

-        Dificuldades para compreender o sentido daquilo que é lido

-        Dificuldades para escrever ortograficamente (de acordo com as regras)

-        Dificuldades com a expressão escrita

-        Dificuldades para dominar operações numéricas

Os sintomas acima descritos compõem, em conjunto, o que se entende por habilidades acadêmicas fundamentais, que servirão como a base para todo o processo de escolarização ao longo do ciclo vital.

 As habilidades acadêmicas são aquisições diferentes de andar ou falar, que são marcos do desenvolvimento adquiridos com a maturação cerebral, pois precisam ser ensinadas de forma explícita (3). O TEAp acaba perturbando o padrão normal da aprendizagem não sendo uma conseqüência da falta de oportunidades de aprendizagem ou educação escolar inadequada. O desempenho das habilidades escolares afetadas da criança deve ser considerado inferior, de modo estável e com significativa repercussão, ao dos colegas em um contexto de potencial intelectual preservado e na ausência de sinais neurológicos (3).

Por mais que as dificuldades de aprendizagem, estáveis e de considerável magnitude, iniciem durante os anos escolares elas podem não se manifestar até o momento que as exigências excedam as habilidades disponíveis da pessoa o que significa que um adulto pode receber o diagnóstico de TEAp e mesmo assim se beneficiar de técnicas que o auxiliem a conviver com as dificuldades (2).

Antes mesmo de iniciar o período escolar, frequentemente, mas não sempre, é possível identificar entre o repertório de habilidades da criança atrasos no desenvolvimento da atenção, da linguagem e das habilidades motoras capazes de persistir e ocorrer simultaneamente ao TEAp. Isto se relaciona com as diferenças no potencial para executar ações: a criança é um excelente desbravador eletrônico, com conexões de cabos de aparelhos e interações online, porém, com leitura lenta e dificuldade de compreender o que é lido.

O processo de avaliação das habilidades cognitivas é crucial para compreender o mecanismo da aprendizagem posto que não há um ponto de corte, dentro da variação normal do desempenho acadêmico, que indique o transtorno. A síntese do desenvolvimento do indivíduo considerando a história clínica (alterações na visão, audição, síndromes genéticas, marcadores neurológicos, buco-maxilo-faciais, fonoaudiológicos, psiquiátricos, cognitivos etc), a história familiar e a história educacional devem ser consideradas durante o diagnóstico.

A Avaliação Neuropsicológica do TEAp, cuidadoso exame com bateria de instrumentos devidamente calibrados, é capaz de apontar a forma e o curso dos processos, em vias de desenvolvimento ou já desenvolvidos, de leitura e escrita que formarão a base para a vida acadêmica. Através do uso de testes padronizados, tarefas que buscam ativar determinadas funções neuropsicológicas, além de escalas, entrevistas com familiares e professores, relatórios escolares e documentos clínicos o Psicólogo, oportunizará o delineamento das facilidades e dificuldades constituindo um perfil neuropsicológico da criança e adolescente.

Durante o processo de avaliação dos transtornos da aprendizagem são avaliados; o acesso aos sistemas de memória (memória visual e verbal), sistemas atencionais (subtipos de atenção), habilidades aritméticas, pragmáticas, prosódicas, perceptivas, práxicas, linguagem oral e escrita (produção e compreensão), desenvolvimento motor, flexibilidade cognitiva e fluências (verbal e gráfica) que, juntos, acabam por evidenciar o potencial intelectual. Características do desenvolvimento emocional também são consideradas ainda que não sejam o foco do processo de avaliação.

 A identificação precoce de dificuldades na aprendizagem é útil, também, para compreender e até mesmo evitar disfunções emocionais, comportamentais e sociais impactando não só o núcleo familiar, mas a auto imagem enquanto sujeito em formação.

Ações de prevenção envolvendo o monitoramento da aquisição das habilidades de aprendizagem durante os anos escolares são desenvolvidas buscando identificar o status do processamento cognitivo, além do desenvolvimento constante de tecnologias para a estimulação neuropsicológica.

 

Referência

1 Capovilla, F.C.; Valle, L.E.L.R.:  Capovilla, A.G.S. (2004). Fracasso Escolar. In: Ed. Científico Valle, L.E.L.R. Temas multidisciplinares em neuropsicologia e aprendizagem. Ribeirão Preto, São Paulo: Tecmedd.

2 American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed.). Washington, DC: Author.

3 Boyd, D. & Bee, H. (2012). The developing child (13th ed.). Upper Saddle River, New Jersey: Pearson.

 

 

 

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