Orientação

Transtorno de Ansiedade na Infância e Adolescência

Por Thaís Landenberger

Depois do Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) e do Transtorno de Conduta, os Transtornos de Ansiedade (TAs) são reconhecidos como os prejuízos mentais mais prevalentes em crianças e adolescentes. No Brasil, cerca de 4,6% das crianças e 5,8% dos adolescentes sofrem de algum tipo de transtorno ansioso, merecendo atenção especializada. A identificação e o tratamento precoces, evitam repercussões negativas na vida das crianças e a ocorrência de problemas psiquiátricos na vida adulta.

Quando suspeitar que meu filho(a) esteja sofrendo de um Transtorno de Ansiedade?

A ansiedade e o medo são considerados patológicos quando aparecem de forma exagerada, em contextos e intensidades desproporcionais ao estímulo, causando algum tipo de interferência na qualidade de vida da criança, no seu conforto emocional ou no seu desempenho na vida diária. Os sintomas podem aparecer tanto em problemas de comportamentais - choro, evitações, dificuldade de separação, entre outros -, nas dificuldades de relacionamento e desempenho escolar, como em manifestações somáticas como dor abdominal,  dores de cabeça, náusea e vômitos. Crianças maiores, podem apresentar ainda, taquicardia, tontura e desmaios.

 

O que causa e como é diagnosticada a ansiedade infantil?

 A causa dos transtornos ansiosos infantis nem sempre é conhecida e provavelmente associada a fatores diversos, incluindo componentes hereditários e ambientais. Pode ser causada por problemas psicológicos, alterações nos transmissores químicos cerebrais, doenças na tireóide, infecções e/ou fatores genéticos.

O diagnóstico é realizado por um profissional especializado com base nas queixas de comportamentos trazidas pelo familiar e/ou escola, e existem diferentes síndromes ansiosas, cada qual com quadro clínico específico. É comum que crianças com um tipo de transtorno de ansiedade, tenham também outro transtorno ansioso comórbido. Os quadros mais frequentemente presentes em crianças e adolescentes são o transtorno de ansiedade de separação (TAS), o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), as Fobias Especificas (FE), Fobia Social (FS), o Transtorno de Pânico (TP) e o Transtorno de Estresse Pós Traumático (TEPT).

 

Transtorno de Ansiedade de Separação (TAS):

Caracteriza-se pela ansiedade excessiva em relação ao afastamento dos pais ou seus substitutos, considerada inadequada ao nível de desenvolvimento. Crianças com esse transtorno, quando estão sozinhas, temem que algo possa acontecer a si mesmo ou aos seus cuidadores, tais como acidentes, sequestro, assaltos ou doenças, que os afastem definitivamente destes. Sendo assim, tendem a evitar o afastamento dos pais e cuidadores, apresentam choro intenso, telefonam repetidamente, necessitam de companhia para dormir ou resistem ao sono, tem pesadelos, se recusam a permanecer na escola, entre outros. Esses comportamentos devem persistir por, no mínimo, quatro semanas, causando sofrimento intenso e prejuízos significativos em diferentes áreas da vida da criança ou adolescente.

Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG)

O TAG está associado a medos excessivos, preocupações ou sentimentos de pânico exagerados e irracionais a respeito de situações variadas. As crianças se mostram constantemente tensas, com dificuldade para relaxar (queixas somáticas sem causa aparente, palidez, sudorese, taquipnéia, tensão muscular e vigilância aumentada). Preocupam-se com o julgamento de terceiros em relação a seu desempenho em diferentes áreas e necessitam exageradamente que lhes renovem a confiança, que as tranquilizem. Podem se comportar de forma autoritária quando se trata de fazer com que os demais atuem em função de tranquilizá-las.

Fobias Especificas (FE)

São aquelas crianças que apresentam medo excessivo e persistente de um determinado objeto ou situação. Em situações de exposição ao estimulo temido, elas tendem a buscar a referência e proteção dos pais ou cuidadores, reagem com choro, desespero, imobilidade, agitação psicomotora ou até mesmo desencadeiam um ataque de pânico. Não é válido para medos relacionados a exposição pública ou de ter um ataque de pânico, visto que estes se configuram uma outra classificação de transtorno.

Diferem dos medos normais da infância pela intensidade e reação desadaptativa, fugindo do controle dos indivíduos e comprometendo o seu desempenho funcional. Os medos são geralmente voltados a  animais de pequeno porte, injeções, ao escuro, altura e ruídos intensos.

Fobia Social (FS)

Medo persistente e intenso de situações consideradas de exposição ao julgamento e avaliação dos outros. A criança vivencia desconforto intenso e presença de sintomas físicos como palpitações, tremores, calafrios e calores súbitos, sudorese e náusea diante de situações como por exemplo: falar de sala de aula, fazer o lanche em ambientes coletivos próximo a outras crianças, dirigir-se aos professores e ouras autoridades, iniciar e manter conversações e brincadeiras com outras crianças. Pode desencadear um quadro depressivo por conta do isolamento e sofrimento emocional.

Transtorno de Pânico (TP).

Caracterizado por ataques de pânico (medo intenso de morrer, taquicardia, sudoreses, tontura, falta de ar, dor no peito, dor abdominal, tremores) seguidos da preocupação de ser acometido por novos ataques. É pouco comum em crianças menores, sendo mais reconhecida entre adolescentes.

Transtorno de Estresse Pós Traumático (TEPT)

O TEPT é diagnosticado em crianças que foram expostas a uma ou mais situações de violência ou de ameaça a sua integridade. Consequentemente a essa exposição são observadas alterações importantes no comportamento como inibição excessiva ou desinibição, agitação e reatividade emocional aumentada, hipervigilância, além de pensamentos obsessivos com conteúdo relacionado à vivência traumática. Estes sintomas devem durar mais de um mês e levar a comprometimento das atividades do paciente. Em crianças menores, devido à dificuldade em compreender e comunicar suas vivencias, os temas relacionados ao trauma podem ser expressados através de brincadeiras repetitivas.

Como e onde buscar ajuda?

O tratamento dos transtornos de ansiedade constitui uma abordagem multimodal, que inclui orientações aos pais e à criança, acompanhamento de psicoterapia, intervenções familiares e, em alguns casos, o uso associado de medicação. É comum o trabalho associado entre os profissionais médicos (pediatra, psiquiatra) e psicólogos.

A identificação e tratamento precoces dos transtornos de ansiedade pode evitar consequências negativas na vida da criança, tais como o baixo rendimento e evasão escolar, a utilização demasiada de serviços de saúde por queixas somáticas associadas à ansiedade e o desencadeamento de problemas psiquiátricos na vida adulta.

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